Sobre a literatura que rasteja em nossos corações - e as vozes que ralam seus joelhos

Você se aproxima, toca, vê a capa, acha interessante, na dúvida se abre ou não, mas não abre. Larga onde estava e vai embora. 

Vê outro livro com a menina do lado no ônibus. Fica alguns instantes observando. Ela sorri com ele em mãos, pois ele desperta suas emoções mais profundas. Ela não tira o olho. O segurar para ela é como um carinho sincero. Você se abaixa e numa gingada digna do mais habilidoso capoeirista, consegue ver o nome do livro. Não espera. Desce no próximo ponto e vai direto para a biblioteca. Segura o livro em mãos, lê o índice, começa as primeiras palavras, mas não acha graça. Fecha novamente, coloca embaixo do braço e imagina se acharia legal. Pensa que não. Se indaga do por que aquela menina se emocionava tanto com ele. Tem um insight. Percebe que nem todos os livros são para todas as pessoas, e vice-versa. Entende que aquele livro não é pra ela; talvez um de receitas, de ficção científica ou policial, mas não um romance. Devolve na prateleira e vai embora. Continua sem ler livro algum, sem saber ao certo o motivo; talvez medo, não sabe. Mas os livros permanecem fechados e a covardia de lê-los na íntegra fixa-se como geada na grama fina. 

Existe um livro para cada leitor, e só quem lê por inteiro se apaixona por saber que uma das melhores partes é mergulhar página por página, foleando calmamente em silêncio. E que uma boa leitura depende do momento e estado de espírito de quem lê. Já vi muito livro bom ser tachado de chato ou cansativo por pessoas que o leram de qualquer jeito, sem olhar atencioso e mente tranquila. Depois de um tempo percebemos que existem várias versões, edições, traduções e ilustrações do mesmo livro, porém a essência não muda, apesar das diferentes mãos e vidas que tocam-lhes. Os livros, de certa forma, são os mesmos, depende de quem lê. A paixão é o encontro do livro com seu leitor, é o momento, é a ousadia de ir além do índice. A paixão nasce quando se nega a tentação de fechá-lo antes do final, quando se vai além da capa brega e das informações burocráticas e básicas do lugar onde "nasceu", foi impresso, de quem "escreveu". O importante é a história por trás do livro, a história que ele contém e as histórias que nos fazem viver. 

Bom, agora imagine que no lugar de eu ter escrito sobre livros, escrevesse sobre pessoas. Seria uma estarrecedora e idêntica semelhança.