O Rafa; e o estrago que ficou no peito daquele velho

Essa história não muito curta é sobre o Rafa. Ele foi adotado aos seis anos. Tinha miopia e asma. Sofreu ataques de pânico durante um tempo considerável de sua infância e adolescência, mas sua mãe, lutando contra a artrite reumatoide e o tempo, não desistiu de criá-lo. Seu marido deixou-a quando Rafa tinha 14 anos; foi viver com sua outra família. Há boatos que virou empresário de sucesso no Maranhão, onde seus filhos biológicos mimados clamavam por atenção. Aos dezessete anos Rafa passou no Vestibular e foi fazer Geografia no Espírito Santo. Já não sofria de ataques de pânico, nem de asma. A miopia ele driblava com óculos. Agora tinha novos problemas. No primeiro semestre herdara ansiedade e medo. Por ser mais acanhado acabou conhecendo o odor das paredes da universidade; só ele chegava perto o bastante dos muros, cantos e pisos. Ele sentia. Era uma alma com rachaduras visíveis, como os lábios adolescentes ao tentarem sorrir pela manhã em dias frios. Mas ele não desistia; alugara um quartinho na casa da família do seu Jerônimo, que era taxista.

Seu Jerônimo, ou seu "Gê", como o Rafa o chamava, tinha 67 anos e era viúvo. Morava com a neta Clara e a sobrinha Mai, que também fazia faculdade; administração. Alguns meses até "esquecia" de cobrar o aluguel... Ajudou muito o menino, que não cansava de agradecer e juntar dinheiro para comprar ovos, pão e macarrão instantâneo. Fazia ovos mexidos com pão sempre na mesma panela de fundo amassado. Comia e ia pra cama. Nunca esquecia da mãe... Nem do abandono. Apenas pensava em subir alguns degraus na vida.

Na última terça o Rafa conheceu a Bel. Ele foi comprar Q'Boa no mercadinho dos "Ribeiro" e olhou tanto pra bunda dela que a Bel lhe chamou a atenção. Horas depois estavam Rafa, Bel, seu Gê e a Mai na mesma garagem. Encostados no táxi do velho, discutiam sobre a impossibilidade de mais uma cabeça sob o teto. Rafa diria naquele momento que Bel trabalhava com prostituição. Foi um romance desenhado entre tamancos roxos, meias 3/4 e enchimentos vagabundos. Era uma profissional em ascensão. Mas o garoto não ligava. Depois da parte de baixo de um beliche ranger por alguns minutos, Rafa saiu do quarto e ligou para a mãe. Entrou no banco do carona do seu Jerônimo e discou. Falou, abafando a voz, que estava com saudade. Que estava apaixonado e jamais foi tão feliz. Ambos riram muito. Ele foi dormir com aquela sensação de felicidade, alimentando esperanças de logo em seguida, após formado, dormir num bom colchão ou honrar o passado que a mãe carregara com os ombros e joelhos vacilantes. Por ora contentava-se em dividir o miojo (e a Bel). Ninguém discordava desse amor. Nem mesmo o velho taxista. Um dia ele foi fazer uma corrida numa vila mais longe. Pegou muito trânsito e já estava atrasado. Já tinha nome feito e não pretendia desfazê-lo; quis honrar a clientela. Botou o carro pela ciclovia e acelerou. Na Rua do Engenho atravessou o carro na frente de uma fábrica caseira de fogos de artifício. Entrou um moleque com um .38 e deu dois tiros no peito do seu Gê. Pegou a carteira, tirou todos os 12 reais que tinha e jogou na frente do primeiro pátio que viu. Seu Gê morreu a caminho do hospital. O Rafa nunca mais foi o mesmo. Abandonou tudo e foi trabalhar numa vidraçaria em Londrina. A Bel foi espancada por um cliente e morreu a céus abertos num bairro pobre numa cidadezinha ao lado de Londrina. A Mai se formou, casou-se com um cliente e foi embora para não-sei-onde. A Clara? Bom, até hoje ninguém sabe onde foi parar. Talvez no futuro alguém descubra; ou a encontre num ônibus velho com destino ao Maranhão.

Sobre a literatura que rasteja em nossos corações - e as vozes que ralam seus joelhos

Você se aproxima, toca, vê a capa, acha interessante, na dúvida se abre ou não, mas não abre. Larga onde estava e vai embora. 

Vê outro livro com a menina do lado no ônibus. Fica alguns instantes observando. Ela sorri com ele em mãos, pois ele desperta suas emoções mais profundas. Ela não tira o olho. O segurar para ela é como um carinho sincero. Você se abaixa e numa gingada digna do mais habilidoso capoeirista, consegue ver o nome do livro. Não espera. Desce no próximo ponto e vai direto para a biblioteca. Segura o livro em mãos, lê o índice, começa as primeiras palavras, mas não acha graça. Fecha novamente, coloca embaixo do braço e imagina se acharia legal. Pensa que não. Se indaga do por que aquela menina se emocionava tanto com ele. Tem um insight. Percebe que nem todos os livros são para todas as pessoas, e vice-versa. Entende que aquele livro não é pra ela; talvez um de receitas, de ficção científica ou policial, mas não um romance. Devolve na prateleira e vai embora. Continua sem ler livro algum, sem saber ao certo o motivo; talvez medo, não sabe. Mas os livros permanecem fechados e a covardia de lê-los na íntegra fixa-se como geada na grama fina. 

Existe um livro para cada leitor, e só quem lê por inteiro se apaixona por saber que uma das melhores partes é mergulhar página por página, foleando calmamente em silêncio. E que uma boa leitura depende do momento e estado de espírito de quem lê. Já vi muito livro bom ser tachado de chato ou cansativo por pessoas que o leram de qualquer jeito, sem olhar atencioso e mente tranquila. Depois de um tempo percebemos que existem várias versões, edições, traduções e ilustrações do mesmo livro, porém a essência não muda, apesar das diferentes mãos e vidas que tocam-lhes. Os livros, de certa forma, são os mesmos, depende de quem lê. A paixão é o encontro do livro com seu leitor, é o momento, é a ousadia de ir além do índice. A paixão nasce quando se nega a tentação de fechá-lo antes do final, quando se vai além da capa brega e das informações burocráticas e básicas do lugar onde "nasceu", foi impresso, de quem "escreveu". O importante é a história por trás do livro, a história que ele contém e as histórias que nos fazem viver. 

Bom, agora imagine que no lugar de eu ter escrito sobre livros, escrevesse sobre pessoas. Seria uma estarrecedora e idêntica semelhança.